críticas

TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva (Teo Poppovic e Paulinho Caruso, 2017)


Comédia nacional é sempre um assunto delicado. Há quem ame, há quem odeie e há quem não assista nem amarrado. Normalmente, me encaixo na última categoria (inclusive para as estrangeiras), exceto pelo fato de que é minha obrigação assistir e, vez ou outra, acabo me surpreendendo.

Esse foi o caso com “TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva”, longa de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic que estrela Tatá Werneck, Vera Holtz e Daniel Furlan, com participações de Luís Lobianco, Bruno Gagliasso e Ingrid Guimarães. O filme estreia no dia 2 de fevereiro e chama a atenção por trazer um humor inteligente, autoconsciente e inesperadamente cinéfilo.

“TOC” conta a história de Kika K. (Werneck), uma atriz que alcança o ponto alto de sua carreira, mas descobre que não está feliz. Enquanto ela tem pesadelos envolvendo a próxima novela das 20h – a distopia futurista Amorgeddon, o Apocalipse do Amor (melhor título ever) –, sua agente (Holtz, brilhante) contrata um ghost writer para escrever uma “autobiografia” sua e lança o livro quase sem avisá-la.

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O livro é o estopim para a crise de identidade de Kika. Afastada da autoria da própria biografia (porque, segundo sua agente, ela “não teria tempo para escrever”), a atriz começa a questionar sua carreira, seu relacionamento vazio com o namorado-galã (Gagliasso) e até sua relação com a mãe (Patricya Travassos), que não vê na vida perfeita da filha a possibilidade de tristeza.

Essas ideias a levam a procurar o verdadeiro autor do livro, que deixara uma mensagem enigmática durante uma tarde de autógrafos. Nessa busca, ela acaba conhecendo o simplório vendedor da livraria (Furlan), com quem vive uma amizade sincera e protagoniza uma das cenas mais fofas dos últimos anos, dentro de um karaokê na Liberdade.

Para quem está se perguntando onde se encaixa o transtorno do título, de fato ele está longe de ser o tema principal. O que parece é que a ideia de retratar a doença foi o que deu origem ao filme (idealizado por Werneck), mas, ao longo do projeto, a questão da infelicidade acabou ganhando mais força. O TOC, então, aparece mais como uma expressão desse desequilíbrio interno do que como a causa para os problemas da personagem.

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Eu disse que o filme tem um lado cinéfilo e não foi só porque a protagonista é uma atriz. O roteiro explora bem a realidade audiovisual brasileira (citando, por exemplo, o prestígio do cinema autoral pernambucano em contraste com a descrença com a comédia e a TV aberta) e se permite arriscar formatos diferentes. Nos sonhos de Kika, por exemplo, um cenário apocalíptico acinzentado toma conta, lembrando o deserto sujo e primitivo de “Mad Max”, enquanto seus sentimentos mais intensos, como a ansiedade, são representados por colagens rápidas de imagens simbólicas, remetendo discretamente ao cinema surrealista.

Outra qualidade que separa “TOC” de outras tantas comédias brasileiras é o fato de que este é um longa-metragem de verdade (com um enredo coerente, desenvolvimento de personagens e foco) e não um apanhado de esquetes emprestadas da televisão. O humor também não está em todas as cenas, mas distribuído ao longo do filme, mais sutil em alguns momentos, mais escrachado em outros. São esses últimos que podem decepcionar quem vinha acreditando na promessa de um cinema nacional sem piadas-de-quinta-série ou palavrões gratuitos – mas a balança, no final, acaba pendendo para o lado positivo. Finalmente.

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