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1984, Trump e os fatos alternativos

Enquanto os novos vídeos do Fala, Cinéfilo! não saem do papel, deixe o cinema de lado por alguns minutos e venha viajar para bem longe no tempo e no espaço… Voltemos a 1948, na Escócia, onde um autor sofrendo de tuberculose escreveu sua obra-prima nos últimos anos de vida. Seu nome era Eric Arthur Blair, mas talvez você o conheça melhor como seu pseudônimo, George Orwell. O livro, era “1984″.

1984Mas por que estou falando de 1984 em pleno 2017? Bom, porque o clássico que influenciou tantas distopias disparou nas vendas após apenas uma semana de governo de Donald Trump, chegando ao topo da lista de livros mais vendidos na Amazon e obrigando a editora a providenciar dezenas de milhares de novas cópias. Não estou inventando essa relação com Trump: de fato, a busca começou depois que a assessora do presidente americano, Kellyane Conway, disse que as informações infladas divulgadas pelo governo em relação à cerimônia de posse não eram “mentiras”, mas sim “fatos alternativos”. Hmm..

Vamos contextualizar um pouquinho mais. A declaração da assessora não foi um fato isolado. Desde a campanha de Trump, os jornalistas americanos têm chamado a atenção para o crescimento do que eles chamam de “fake news”, as “notícias falsas”, e até chegaram a culpar o Facebook por isso – afinal, todo mundo sabe que ninguém checa informações antes de compartilhar, e notícias falsas viralizam mais do que gripe. E foram basicamente boatos que ajudaram a desmoralizar a candidata Hillary Clinton, eleger seu concorrente e gerar o caos que se instalou desde então.

O fato é que a checagem de informações tem se tornado uma coisa tão rara em tempos de redes sociais que já está se falando em uma era de “pós-verdade”, em que não importa se algo é verdadeiro ou não, desde que renda cliques. Um certo cachorro de um certo filme hollywoodiano que o diga.

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Em 1984,  Michael Radford adaptou a obra de Orwell para os cinemas com John Hurt no papel de Winston Smith

Voltemos então a Orwell. Talvez você já esteja familiarizado com a obra, mas vou refrescar sua memória: o livro se passa num futuro (que hoje é passado) em que um governo totalitário comandado pelo Grande Irmão – daí que vem o Big Brother – mantém o poder por meio da vigilância, do medo e da ignorância. Como assim?

Primeiramente, esse é um universo onde não há privacidade: todas as ruas e até o interior das casas têm câmeras, que fiscalizam se as pessoas estão seguindo a lei. Elas não podem criticar o governo, se relacionar intimamente entre si ou questionar qualquer coisa que seja. Um pensamento subversivo já é motivo de prisão e os próprios cidadãos ajudam a fiscalizar uns aos outros.

O protagonista é Winston, que vive num conjunto de continentes chamado Oceania e trabalha no Ministério da Verdade. Sua função é “atualizar” notícias antigas, de acordo com os interesses do Partido. Se a Oceania começa uma guerra com a Eurásia, por exemplo, então a Eurásia precisa ser retratada como um inimigo desde sempre, e os jornais antigos são alterados para incluir essa informação.

Aqui, temos dois conceitos: a manipulação da verdade – que é o que os Fatos Alternativos do Trump tentam fazer – e a ideia de uma guerra permanente – que também é uma prática tradicional dos EUA. Segundo o livro, ter um “inimigo de Estado” é um jeito fácil de promover o nacionalismo e unir as pessoas, canalizando sua raiva e seu medo para fora, e não para dentro. É como proibir árabes e mexicanos de entrarem no seu país porque a ameaça está no outro e não em você.

Mas existe um outro detalhe em 1984 que ajuda a entender este momento no mundo e o medo dos “fatos alternativos” e da “pós-verdade”. Muitas ficções científicas exploram a linguagem para mostrar como seus personagens enxergam o mundo. Agora, você já entende melhor essa teoria porque “A Chegada” praticamente desenhou a tese de Sapir-Wohrf pra todo mundo ver. Claro que de um jeito bem extremo, mas a ideia é essa: as palavras que você conhece ajudam a determinar a forma como você interpreta o mundo.

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“Laranja Mecânica” de Anthony Burgess, foi adaptada por Stanley Kubrick em 1971

Em “Laranja Mecânica”, por exemplo, os jovens delinquentes usam um dialeto chamado Nadsat, que embeleza a violência e ridiculariza autoridades. Já em “1984“, o governo do Grande Irmão força o uso da Novilíngua, que é uma língua simplificada – que permite menos sutilezas e, portanto, menos liberdade – e que inclui alguns conceitos como Duplipensar, Crimideia e Impessoa.

Duplipensar é acreditar em duas coisas contraditórias ao mesmo tempo – como na verdade que estava escrita no jornal até ontem e na que está escrita hoje. Crimideia é o crime cometido em pensamento, ou seja, o mero impulso de questionar. E Impessoa é o criminoso, alguém que deixa de ser visto como um ser humano para ser visto exclusivamente como um inimigo a ser exterminado e apagado dos registros, como se nunca tivesse existido.

O mais assustador é que nenhum desses conceitos é realmente tão ficcional. Eles só não existem, ainda, como palavras reais, mas talvez seja questão de tempo.

E eu fecho informando que, nesta semana, “1984” caiu para 2º lugar na Amazon e quem assumiu o posto foi “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, escrito nos anos 80. Este, mostra um futuro próximo onde universidades foram extintas, advogados não existem mais e mulheres são proibidas de ler e contratadas para procriar. O futuro, segundo a literatura, é realmente sombrio… Mas esperamos que a realidade aprenda alguma coisa com ela.

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